quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Muamar Kadafi - Líbia

Muamar Kadafi



Muamar Kadafi assumiu o poder na Líbia após golpe militar em 1969. Coronel, então com 27 anos, ele depôs a monarquia e implantou a ditadura no país. Kadafi nacionalizou boa parte das atividades econômicas do país, entre elas a extração de petróleo. Após anos de repressões e relações internacionais tensas, têm início manifestações contrárias ao regime militar.
Embalados pelos protestos que se espalham por diversas regiões árabes em 2011, manifestatantes tomaram as ruas da Líbia, em ação contrária à prisão de Fathi Terbil, advogado e ativista dos direitos humanos responsável por ações jurídicas de um grupo de famílias de prisioneiros mortos no Massacre de Abu Salim, em 1996. Desde fevereiro, protestos se espalham no país e pedem a saída de Kadafi do poder.
Em razão dos conflitos, apesar da sangrenta reação das forças pró-Kadafi, o ditador perdeu o controle de boa parte do país. Desde então, teve início uma busca ao ex-líder. Em outubro, o Conselho Nacional de Transição anunciou a captura - e depois a morte - de Kadafi. Poucos momentos depois, uma multidão ocupou as ruas de Trípoli, capital líbia, para comemorar o que simbolizaria o fim do governo mais longo tanto na África quanto no mundo árabe.

Nem líbios sabem o que fazer da liberdade

Fazia quase três semanas que o Conselho Nacional de Transição (CNT) havia tomado Trípoli, e agora avançava sobre os últimos redutos de Kadafi. Khris nem sequer pegara em armas. No início da revolução, seu irmão fora flagrado em um posto de controle militar levando 25 mil dinares (US$ 17 mil) que sua família havia juntado para ajudar os rebeldes de Zlitan, de onde provém. Mas ele sentia que se tinha exposto o suficiente para sua vida estar ameaçada, e fazia planos de contingência em caso da volta de Kadafi.
Dois dias depois da queda de Trípoli em 23 de agosto, Fawzie Hajjaj, uma viúva de 40 anos, festejava com seu filho, Khalil, de 9 anos, na Praça Verde, rebatizada Praça dos Mártires. "Só vamos dormir tranquilos quando ele (Kadafi) for preso", dizia Fawzie, cuja participação na revolução fora cuidar de manifestantes feridos na sua casa. "Cada um de nós ajudou como pôde", testemunhou sorrindo.
Os combatentes de Misrata que cercavam Sirte se impacientavam com a demora da liderança civil em autorizar o avanço sobre a cidade. "Nossa revolução não terá acabado enquanto não pegarmos Kadafi", assinalava Salem Daghmai, um taxista de 35 anos que se engajara nos combates desde o começo, em Misrata. "Será um desastre se Kadafi fugir do país, porque vai se rearmar e voltar. Precisamos pegá-lo."
Depois de suportar por quatro décadas as provas cotidianas de onipotência de Kadafi, na forma de uma violência sem controle nem limites, os líbios continuavam vivendo o pesadelo de seu retorno triunfal. O alívio dessa angústia pessoal é uma das sensações que eles experimentam agora com a notícia da morte do ditador. Inversamente, ela consolida uma sensação jamais experimentada pelos líbios: a de que eles podem ser donos do seu destino.
'Escravidão'. "Vivíamos como escravos", repetia, no início da revolução, o contador Sohaib Bogerma, de 27 anos, que trabalha para uma firma escocesa em Benghazi. "Nunca aceitaremos voltar para a vida que tínhamos. Agora vamos até o fim." Como ele, muitos integrantes da classe média, com bons empregos e vida confortável, explicavam que nada disso valia a pena, na falta da liberdade.
Muitos ocidentais têm perguntado o que os líbios farão com essa liberdade, que caminho tomarão: o da democracia, o de uma teocracia islâmica ou o de uma nova ditadura, dada a falta de familiaridade do mundo árabe-muçulmano com os valores democráticos. A verdade é que nem os líbios sabem. Ao longo dos últimos oito meses, eles se concentraram em aniquilar Kadafi, no sentido físico, o que foi conseguido apenas ontem.
Antes do levante iniciado no dia 17 de fevereiro, o máximo a que eles aspiravam eram reformas no interior do regime, como as prometidas por Seif al-Islam, filho e aparente sucessor de Kadafi. Os líbios nunca se perguntaram antes que papel gostariam que o Islã tivesse na política, ou que sistema político seria melhor para eles. Na Líbia, não havia perguntas. Apenas uma resposta: Kadafi.
Portanto, é uma questão totalmente em aberto que Líbia está nascendo hoje - assim como que Egito, que Tunísia e, muito provavelmente, que Síria brotarão da Primavera Árabe.

Sem Kadafi, nasce a 'Líbia livre'

Imagens filmadas por um cinegrafista amador mostram o "coronel" ferido, mas ainda vivo, antes de ser declarado morto pelo Conselho Nacional de Transição (CNT), o órgão máximo do movimento rebelde. Quase indiferente às suspeitas de uma execução sumária, multidões festejaram nas ruas de Trípoli o que consideram ser a "Líbia livre".
O cerco a Sirte, cidade de 100 mil habitantes a 450 quilômetros da capital, já se prolongava por um mês. Nas últimas horas, porém, o rebeldes avançaram ao chamado Setor 2, ou Dollar, o coração da cidade. Segundo autoridades do CNT ouvidas pelo Estado na quarta-feira, em Trípoli, esperava-se que "cinco ou seis ‘personalidades’ do regime" estivessem cercadas na região.
Às 8h30, Kadafi e líderes do regime, como seu filho Moutassin e o ex-ministro da Defesa, Abu Bakr Yunis Jabar, fugiam do centro da cidade num comboio quando foram interceptados por um bombardeio de aviões de França e Estados Unidos, sob o comando da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Por terra, os rebeldes alcançaram os veículos. Imagens amadoras gravadas e divulgadas no YouTube mostram os últimos instantes de vida do ditador. Ferido e debilitado - após ser retirado de uma tubulação de esgoto, segundo a rede de TV CNN -, Kadafi é cercado de guerrilheiros, que gritam "Allah u akbar (Deus é maior)".
A notícia da prisão espalhou-se então por todo o país. Por volta de 11h, os primeiros gritos e disparos de comemoração começaram em Trípoli. Por volta de 12h30min, a morte de Kadafi foi anunciada por Abdelhakim Belhadj, chefe militar do CNT - confirmação sucedida de uma foto do ditador ensanguentado. No momento em que as imagens foram mostradas pelas emissoras de TV árabes, uma explosão de festa tomou Trípoli e multidões foram às ruas portando armas e bandeiras da nova Líbia.
Em meio à celebração, no Hotel Radisson Blu - uma das sedes do governo provisório -, Mahmoud Jibril, primeiro-ministro do CNT, confirmou a morte do ditador, mas não as circunstâncias de sua execução. "Esperávamos este momento há muito tempo. Muamar Kadafi está morto", disse, completando, em tom conformista: "Eu gostaria de tê-lo capturado vivo. Mas ele está morto". Questionado pelo Estado após seu pronunciamento, Jibril não explicou as circunstâncias da morte. "Não posso garantir que ele não tenha sido morto em um ataque aéreo", reafirmou. À noite, o premiê disse que o ex-líder morreu em consequências de ferimentos durante uma troca de tiros entre forças do CNT e kadafistas.
Instantes depois, o ministro das Finanças e do Petróleo do CNT, Ali Tarhouni, informou que Kadafi não havia morrido no bombardeio. "Até onde sabemos, ele não foi morto no ataque aéreo. Foi durante choque com os rebeldes de Misrata", afirmou. Ao longo do dia, rumores sobre um jovem que teria assassinado o ditador com um tiro de pistola Browning Hi Power 9mm, dourada, pertencente ao arsenal de Kadafi, circulavam pelo país.
Alheia às dúvidas, a multidão se jogou às ruas de Trípoli e outras grandes cidades do país para comemorar o que muitos consideram o fim da revolução armada iniciada em 17 de fevereiro de 2010, que teria deixado cerca de 25 mil mortos no país. A morte também põe fim a 42 anos de protagonismo de Kadafi e sua família na cena política da África e do Oriente Médio. Determinado a virar a página da história, o CNT informou que a produção de petróleo começa a ser restabelecida no país. Antes do conflito interno, a Líbia produzia 1,6 milhão de barris por dia. Atualmente, a produção seria de 350 mil barris.

Referencias:
http://www.estadao.com.br/especiais/quatro-decadas-de-ditadura-na-libia,131869.htm
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,nem-libios-sabem-o-que-fazer-da-liberdade-,788275,0.htm
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,nem-libios-sabem-o-que-fazer-da-liberdade-,788275,0.htm
http://topicos.estadao.com.br/kadafi

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