quarta-feira, 23 de abril de 2014

Um Pouco de Keynesianismo

Estava procurando algo meu sobre Keynesianismo e não encontrei então resolvi postar algumas notas de aula do meu professor portuga Dr. Mario Jorge Cardoso Coelho Freitas da UDESC. Por isso tem um pouco de português de Portugal e Espanhol.

O pensamento keynesiano

John Maynard Keynes (1883-1946)
John Maynard Keynes, foi um economista britânico cujos ideais serviram de influência para a macroeconomia moderna, tanto na teoria quanto na prática

O pensamento keynesiano não pôs em questão os conceitos e postulados básicos das teorias liberais clássicas e neo-clássicas. Colocando-se, indiscutivelmente dentro do sistema, não questionou nunca os seus fins, antes tentando sugerir mecanismos para evitar crises e potenciar esse sistema. A sua grande inovação consistiu na substituição da análise microeconómica pela análise macroeconómica, de carácter nacional e na defesa do papel regulador do estado no funcionamento do mercada. Está na base do conceito de desenvolvimento com crescimento económico. Indicadores macroeconómicos (relativamente “cegos” como o PIB) passaram a ser os indicadores de desenvolvimento. Baseado num certo compromisso entre capital e trabalho, conduziu a grande parte das nações capitalistas ocidentais do pós segunda guerra a uma certa prosperidade e estabilização social. Durante a crise dos anos 70 atingiu os limites e sucumbiu face às triunfantes teorias do neo-liberalismo e da globalização econômica.

A associação entre desenvolvimento e crescimento económico (embora com raízes que remontam ao pensamento económico clássico e, em parte, neoclássico) tem sua origem na crise dos anos 29/30 do século XX, em que o mundo capitalista se confrontou com um desequilíbrio entre capacidade produtiva e procura real, o que gerou uma situação de desorganização do sistema económico.

Tendo consciência que era absolutamente necessário controlar, de alguma forma, as tendências desreguladoras inerentes ao sistema capitalista, o pensamento keynesiano postula: “la ampliación de la actividad y la responsabilidad del estado en la vida económica de los países” (Bifani, 1997).

O privilégio vai para a análise macroeconômica “proporcinar instrumentos que se puedan manejar por un poder decisional superior – o Estado –  a un nivel que cubra as actividades económicas que son responsabilidad del Estado: el pais, sus regiones e sus sectores económicos. Por eso se dice que se interesa en las magnitudes macroeconómicas. El análisis requiere indicadores macroeconómicos. La macroeconomia y los sistemas de contabilidad nacional adquieren, a partir de Keynes, su máxima importancia” (Bifani, 1997, p. 70).


Os postulados do pensamento neokeynesiano que visam a solução e prevenção de crises económicas, assentam num mecanismo que os biológos, mas também a cibernética (e, em geral, vários ramos das ciências físico-naturais), têm estudado e conhecem bem: os chamados mecanismos de retracção (neste caso retracção positiva). Há dois grandes tipos de mecanismo de retroacção:  negativa e positiva Do inglês feedback.

“O modelo keynesiano de crescimento capitalista que levou prosperidade económica sem precedentes e estabilidade social à maior parte das economias de mercado durante quase três décadas após a Segunda Guerra Mundial, atingiu as suas próprias limitações no início da década de 1970, e a sua crise manifestou-se sob a forma de inflação desenfreada” (Castells, 2005, p. 55).

Eu particularmente gosto das ideias de Keynes e já li bastante sobre ele, acredito no capitalismo mas também que ele precisa de CONTROLE e que o responsável por isso é o ESTADO.

Leia também sobre CRISES E ECONOMIA em


Jonathan Kreutzfeld


A Hiperinflação e a Indexação

A hiperinflação é uma inflação acima dos níveis considerados adequados. De acordo com muitos economistas, pode-se considerar hiperinflação quando o índice fica acima de 50% ao mês.

Atualmente (2014) temos somente inflação, mas na década de 1980 e 1990 o Brasil viveu um período de aumento de preços muito acima do que poderia ser considerado normal.

Observe na figura abaixo o período citado.




As notícias na época comprovam a super ou hiperinflação



Observe a reação do Plano Real na Inflação



INDEXAÇÃO

Quase 20 anos após o Plano Real, em 1994, uma das “pragas” da hiperinflação, a indexação, ainda infesta boa parte da economia brasileira, e dificulta o controle dos preços no país.

Segundo economistas ouvidos pelo G1, os preços indexados no Brasil têm peso de cerca de 30% no índice oficial de inflação, e sofrem a influência da alta de preços passada – ou seja, são reajustados porque subiram no período anterior, “carregando” a inflação para a frente.

Funciona assim: a alta de alguns preços faz a inflação subir. Essa inflação, em seguida, é usada para calcular o reajuste dos produtos e serviços que têm preço indexado. Como consequência, esses preços sobem – e, ao subirem, geram uma "nova inflação", e isso vira um ciclo que se repete.

Quem foi assalariado na década de 1980, período em que a indexação teve seu “auge” no Brasil, se lembra bem dela: os salários, que também eram indexados, eram corrigidos pela inflação do mês anterior, e subiam sempre. O poder de compra, no entanto, só caía, com os preços subindo – pelo menos – na mesma medida.

Do aluguel às tarifas de ônibus, do salário mínimo à mensalidade escolar, o brasileiro ainda convive com a indexação em boa parte da economia. Do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a chamada “inflação oficial”, itens que representam até um terço de seu peso podem ser influenciados pelo “carregamento” dos preços do passado.

De onde vem?

Patrícia Pereira, Gestora de Renda Fixa da Mongeral Aegon Investimentos, relaciona a hiperinflação de pouco mais de 20 anos atrás como o principal motivo para a indexação na economia brasileira. Herança daquela época, os preços são indexados para que empresas, governos e pessoas se protejam da inflação – e acabam gerando mais da mesma.
Além da indexação à inflação, também há a indexação de preços com outros ativos, como o dólar. Considerando também a moeda norte-americana, a indexação teria um peso maior ainda na economia brasileira.
Em termos gerais, há três “grupos” de preços, segundo explica o professor Alcides Leite, da Trevisan Escola de Negócios: os preços influenciados pela variação do dólar (produtos comercializáveis), os preços livres (dependem da oferta, da demanda e da concorrência) e os preços administrados (cujos reajustes dependem da inflação passada e da autorização do governo).
"Podemos dizer que os preços livres respondem por algo em torno de 40% do peso [do IPCA], preços administrados em torno de 30% e comercializáveis (dólar) em torno de 30%. Desta forma vemos que a economia brasileira é ainda bastante indexada. Pelo menos 60% dos preços variam com o dólar e com a inflação passada", avaliou Alcides Leite.

A contribuição na inflação

Segundo o Banco Central, a chamada "inércia inflacionária" – em boa parte causada pelos processos de indexação da economia brasileira – respondeu por 0,79 ponto percentual do IPCA de 5,91% registrado em 2013 (13,4% de todo o índice).
Em seu relatório de inflação, divulgado no final de março, o BC avaliou que a elevada variação dos índices de preços ao consumidor, em doze meses, contribui para que a inflação ainda mostrasse resistência.

Responsabilidade do governo

De acordo com Claudio Shikida, coordenador do Nepom (Núcleo de Estudos de Política Monetária) do Ibmec, parte da indexação existente na economia brasileira é de responsabilidade do próprio governo. "Podemos falar de uma responsabilidade direta do governo, no caso dos preços administrados (que representavam, segundo o BC, aproximadamente 23% do IPCA em março de 2013), mas também há a responsabilidade quando [o governo] promove intervenções no funcionamento dos mercados, causando aumentos de preços", declarou.
Ainda segundo Shikida, é o caso das tarifas de energia elétrica. "Não é preciso ser economista para saber que ela será reajustada no futuro. (...) O aumento da demanda de energia elétrica mostrou-se incompatível com a oferta e, agora a inflação que virá pode até ser maior do que a que ocorreria se o governo não tivesse promovido a diminuição artificial (dos preços)", afirmou ele.

O que fazer para desindexar a economia?

De acordo com Patrícia Pereira, da Mongeral Aegon Investimentos, o primeiro passo para desindexar a economia "envolveria um comprometimento maior com a inflação, trazendo-a para o centro da meta, de 4,5%. Além disso, o empenho para uma redução gradual da meta de inflação passaria credibilidade ao projeto".
Em relação à indexação dos preços administrados, acrescentou a economista, os contratos de concessões de serviços públicos deveriam ser corrigidos de acordo com os custos e rentabilidade de cada setor, eliminando o "automatismo" da reposição dos índices de preços.
"Merece destaque, ainda, a regra de indexação do salário mínimo, criada em 2011 e com vigência até 2015 [inflação mais variação do PIB]. A medida garante aumentos reais que acabam por indexar e pressionar ainda mais a inflação, mas o custo político de acabar com tal medida é considerável", avaliou ela.
Claudio Shikida, do Ibmec, avalia que "não existe mágica" para desindexar a economia. "Você tem que diminuir a inflação para que as expectativas se ajustem. Então, deve-se estimular a competição para que os preços não ganhem inércia, o governo deve ser consistente em suas ações e discursos no que diz respeito à independência do Banco Central em buscar a meta da inflação com uma política fiscal que use métodos contábeis que não gerem dúvidas e deve-se evitar o uso de medidas populistas, por mais que a tentação seja grande (como no caso da redução de tarifas de energia elétrica)".


INFLAÇÃO ATUAL


Já em 2013 conseguimos perceber no bolso uma alta de preços acima dos reajustes salariais negociados de acordo com o IPCA.



A expectativa dos analistas de mercado para a inflação continua a se deteriorar e eles já preveem que o índice oficial de preços do país supere o teto do intervalo da meta neste ano, de acordo com o boletim Focus, do Banco Central, que colhe estimativas entre cerca de cem instituições.

A mediana das projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu pela sétima semana consecutiva, desta vez de 6,47% para 6,51%, ligeiramente acima, portanto, do teto de 6,5%.

Os analistas do grupo Top 5 – os que mais acertam as previsões – estão mais pessimistas. A mediana de médio prazo do grupo para o IPCA em 2014 saiu de 6,49% para 6,59%.

Com relação a 2015, a mediana geral do mercado seguiu em 6%, enquanto a mediana de médio prazo do Top 5 caiu de 6,27% para 6%. Em 12 meses, a expectativa passou de 6,12% para 6,07%.

As expectativas se deterioraram apesar de o IPCA-15 de abril, prévia da inflação do mês, ter subido menos que o esperado. O indicador avançou 0,78%, de 0,73% em março, mas ficou abaixo da média de 0,85% apurada pelo Valor Data entre 19 analistas.

Apesar da surpresa positiva, os economistas ouvidos pelo Valor avaliaram que a resistência do grupo alimentação e bebidas e os reajustes de energia elétrica e de medicamentos vão manter a inflação pressionada na segunda quinzena do mês e devem levar o índice oficial de inflação a encerrar abril c om alta próxima de 0,75%, acima dos 0,55% observados em igual período do ano passado. O grupo alimentação e bebidas foi responsável por 58% da alta do IPCA-15 em abril, segundo o IBGE.

No Focus, a expectativa para o IPCA de abril subiu de 069% para 0,80%. A expectativa para a alta dos preços administrados também subiu, de 4,60% para 4,70% em 2014 e de 5,90% para 6% em 2015.

Apesar de prever inflação bem mais salgada, os analistas em geral não mudaram suas expectativas para a Selic, que seguiram em 11,25% ao fim deste ano e em 12% no fim de 2015. Atualmente, a taxa básica de juros está em 11% ao ano. Entre os Top 5 nada mudou. Eles continuaram a prever Selic de 11,88% em 2014 e de 13% em 2015.

"Bora fazer rancho no supermercado enchendo o carrinho pra não pagar pelos aumentos ocorridos no mês"!!!



Jonathan Kreutzfeld

Fonte:

http://www.valor.com.br/brasil/3522424/mercado-ja-projeta-inflacao-acima-do-teto-da-meta-em-2014#ixzz2zkaBzcpn

http://g1.globo.com/economia/noticia/2014/04/heranca-da-hiperinflacao-indexacao-ainda-afeta-grande-parte-dos-precos.html

20 anos do Plano Real


Entre os temas mais relevantes e que podem ser lembrados em alguns vestibulares em 2014 entendo ser este um dos mais importantes juntamente com outros já postados no blog e que ainda aparecerão.

O Plano real surgiu em 1994, no começo desta década também surgiram a maior parte dos Blocos Econômicos que conhecemos. Era o Neoliberalismo trazendo o capitalismo selvagem para os países subdesenvolvidos. Foi um período bem complicado para praticamente todas as classes sociais no Brasil, mas principalmente para os assalariados que não poderiam reajustar seus salários sozinhos. Então precisavam fazer verdadeiros milagres para pagar todas as contas em dia.

É um assunto interessante, e como a maior parte dos vestibulandos não tem idade pra saber exatamente o que isso significa na pele, mas teme por isso no atual contexto econômico brasileiro, vale a pena saber o que é Inflação, Indexação e é claro sobre o Plano Real.

Separei em duas postagens, esta é sobre o plano real e o link abaixo leva para outra sobre Indexação e Inflação.


Para auxiliar na compreensão sobre o Plano Real pesquisei 3 textos sobre o assunto, o primeiro é uma versão mais crítica sobre o funcionamento do Plano a segunda uma versão favorável e por fim uma versão de alguém um pouco mais neutro.

Jonathan Kreutzfeld


O PLANO REAL (PONTO DE VISTA DE ESQUERDA)



O plano Real, lançado em 28 de fevereiro de 1994, foi um plano influenciado pelas ideias do economista inglês John Maynard Keynes e pelas experiências hiperinflacionárias europeias (da primeira metade do século XX), mas que contou com uma questionável administração de economistas brasileiros e com as (des)orientações do Fundo Monetário Internacional (FMI). Longe de ter sido “idealizado por Fernando Henrique Cardoso”, como afirmam O Globo e outros veículos assemelhados, o plano foi organizado e dirigido exclusivamente pelos economistas do PSDB.

Fernando Henrique Cardoso (FHC) era o ministro da Fazenda durante o período de lançamento do Plano. O presidente era Itamar Franco. Um mês após o lançamento do plano, FHC se desincompatibilizou do cargo para se candidatar à Presidência da República pelo PSDB. Rubens Ricupero assumiu o ministério da Fazenda. Ricupero deveria ser o responsável por toda a condução do plano.

Em um estúdio da TV Globo, antes de uma gravação, o ministro da Fazenda revelou reservadamente ao jornalista Carlos Monforte suas intenções, vontades e ideias sobre o plano Real.  Não contava, contudo, que estava em canal aberto para algumas residências que possuíam antena parabólica. Sua conversa com o jornalista foi gravada e divulgada.

O ministro, falando informalmente sobre o plano Real, disse: “O que é bom a gente fatura. O que é ruim, esconde.” Além disso, afirmou que era o principal “cabo eleitoral” de FHC. Ele se considerava também um achado para a Rede Globo porque a emissora poderia fazer a campanha de FHC através das suas aparições - “o tempo todo no ar”, segundo palavras do próprio ministro da Fazenda.

Após a divulgação da sua conversa com o jornalista da Globo, não restou outra alternativa: ele pediu demissão do cargo em 6 de setembro para não contaminar a campanha tucana à Presidência. Contudo, o mais importante para entendimento da economia política do Real foi a proposta econômica que o ministro fez durante a conversa informal e que viria a se tornar o carro-chefe da fase de derrubada da inflação proposta no plano. À frente, este ponto será desenvolvido.

Antes do lançamento da nova moeda, o real, a inflação era elevada. Mais do que isso: existia um regime de alta inflação, isto é, havia uma dança de preços. Alguns preços subiam porque outros tinham subido. E estes subiam porque aqueles haviam subido. E assim os preços aumentavam de forma sucessiva. Havia uma corrida de preços, mas de forma dessincronizada: aumentavam em momentos diferenciados e com percentuais diferentes. Além disso, nenhum contrato era assinado com a moeda corrente, o cruzeiro real. Os contratos usavam moedas fictícias (referências) ou algum índice para indexar o seu valor à inflação e/ou aos desejos dos contratantes.

Muito foi acumulado em termos de discussões e experiências desde o Plano Cruzado de fevereiro de 1986 até o lançamento do Real. Nos meios acadêmicos fervilhavam artigos e debates sobre o assunto. O Plano Cruzado havia dado errado por um simples fato: o seu carro-chefe foi o congelamento de preços. O raciocínio era simples: se os preços sobem porque outros já subiram, então congelam-se os preços e não haverá mais motivos para reajustes. Errado: os preços estavam dessincronizados, então quem ficara “mal na foto” (isto é, ainda não tinha reajustado o seu preço) no momento em que houve o congelamento não aceitou aquela situação e reagiu, reajustando seus preços. Aí... os outros reagiram também. Assim, ruiu o congelamento e o Plano Cruzado. Utilizado eleitoralmente pelo PMDB, o congelamento de preços foi mantido (com a Polícia Federal e fiscais nas ruas) somente até as eleições de novembro de 1986. O resultado: o PMDB ganhou o governo dos estados de todas as unidades da federação, exceto Sergipe.

Além da experiência do Cruzado, havia mais uma lição muito importante na história econômica. Keynes, o economista inglês, foi convidado pelo governo alemão, em 1922, a apresentar um plano para derrubar a hiperinflação alemã.

Os pilares do Plano de Keynes eram os seguintes: (i) a derrubada da inflação deveria ser uma iniciativa do governo, já que desconfiava de qualquer tipo de ajuda externa, (ii) fixação da taxa de câmbio para promover a estabilização, já que os preços estavam perfeitamente indexados ao dólar (isto é, os preços subiam de forma sincronizada todos os dias) e (iii) os déficits públicos seriam curados posteriormente, depois da estabilização e como consequência do crescimento econômico (que possibilitaria aumento da arrecadação).
Estas lições eram bastante conhecidas entre os economistas brasileiros no início dos anos 1990. Minha dissertação de mestrado, defendida em 1993, intitulava-se “As lições do Plano Keynes para um projeto de estabilização”. Muitos economistas escreveram trabalhos acadêmicos relevantes relacionando as ideias de Keynes, os países que conviveram com a hiperinflação e um plano de estabilização para o Brasil. Destacavam-se Paulo Nogueira Batista Jr. e Gustavo Franco. Rudner Dornbusch, um professor americano do MIT – e que com frequência visitava o departamento de economia da PUC-Rio, ninho dos economistas do PSDB – republicou parte do Plano Keynes em 1987 em artigo de sua autoria.

Na primeira parte da década de 1990, havia uma grande lição já apreendida do Plano Keynes e do fracasso do Cruzado: era preciso sincronizar a dança dos preços com a variação diária do valor do dólar. Dado este passo, o próximo seria o lançamento de uma âncora cambial (cuja versão mais recomendada era o congelamento da taxa de câmbio em um patamar de equilíbrio, isto é, que estimulasse exportações e defendesse o mercado doméstico da invasão de produtos importados). O FMI aproveitou este ambiente para lançar mais uma de suas ideias: países “irresponsáveis” não poderiam ter sequer moeda, deveriam utilizar o dólar americano como moeda. O FMI foi o principal incentivador da radical dolarização argentina, que quase extinguiu o peso durante a década de 1990, e do fim da moeda nacional (o sucre) no Equador, que até hoje está sem sua própria moeda – apesar de ser governado pelo antineoliberal Rafael Correa.
Os economistas do PSDB inventaram uma dolarização disfarçada para a economia brasileira. Uma boa invenção, originária nas proposições de André Lara Rezende e Pérsio Arida (proposição conhecida à época por “Larida”). Lançaram no dia 1º de março de 1994 a Unidade Real de Valor (URV), que valia 1 dólar americano e tentaram por 4 meses (de março a junho) URVerizar todos os preços. Em outras palavras, estimularam que os preços subissem todos os dias de forma sincronizada e referenciada na URV que valia 1 dólar – e que variava de valor todos os dias.

A tentativa de dolarização/sincronização de preços à brasileira foi um fiasco. Somente os contratos públicos (energia elétricas e outros) aderiram, de fato, à URV. Existem trabalhos científicos (nunca contestados) publicados na Revista de Economia Política que demonstram esta afirmação. Na época, surgiu um racha entre os economistas do PSDB. Uns avaliavam que seria necessário que o período de dolarização/sincronização tivesse pelo menos um ano para que todos os preços aderissem à URV. Outros, não. O motivo para o tiro curto de apenas quatros meses foi essencialmente eleitoral.

Óbvio que uma boa sincronização seria desejada para que a fase seguinte, a da estabilização, fosse bem sucedida – afinal, a lição do Cruzado estava viva na memória dos economistas. Mas a parte vencedora argumentou que tal fase deveria ser curta (não havia tempo, diziam). A fase de estabilização deveria chegar logo, deveria ocorrer pelo menos quatro meses antes das eleições de novembro de 1994. Caso contrário, perderiam as eleições, já que Lula estava bem na frente de FHC – em maio, as pesquisas apontavam a vitória do petista no primeiro turno (43% contra 17% de FHC) – a reviravolta eleitoral somente ocorreu depois de 1º de julho, quando entrou em cena a nova moeda, o real, em substituição à velha, o cruzeiro real.

A fase de sincronização da dança de preços via URV foi um fiasco econômico. Então, alguns céticos do plano Real pensaram que tudo daria errado porque os preços voltariam a dançar e subir, tal como no Plano Cruzado. Os economistas do PSDB sabiam que isto, de fato, poderia ocorrer. Lançaram mão de uma “âncora” inovadora: câmbio megavalorizado e abertura comercial. A âncora lançada em 1º julho não foi a do câmbio fixo e equilibrado, tal como estava no Plano Keynes, mas sim a do câmbio flutuante (para baixo) e do câmbio megavalorizado (inicialmente com R$ 1 comprava-se US$ 1,mas logo em seguida com 84 centavos de real comprava-se 1 dólar americano). Com esse câmbio e com a abertura comercial, as pressões por reajuste foram dissolvidas de forma truculenta com uma invasão avassaladora de produtos importados.

O caminho foi exatamente aquele anunciado pelo ministro Ricupero na conversa reservada que foi capitada pelas antenas parabólicas. Ele considerava que quem desejava fazer reajustes eram “bandidos” e que ele daria uma “pancada” promovendo importações. Disse:
- Eu vou fazer um troço firme.
- É pra tudo quanto é bem de consumo e tal. Importação de tudo. ... Bens duráveis também.
- Vou fazer uma coisa grande.
- É tudo bandido.

O que manteve os preços estabilizados, após o lançamento da nova moeda em 1º de julho de 1994, foi a concorrência desleal de produtos importados – essa foi a principal “âncora” do plano Real – não existiu qualquer âncora cambial, tal como sugerida por Keynes ou aplicada em diversas experiências. Não houve acomodação de preços, mas sim o deslocamento de produtos nacionais e a introdução de produtos importados no mercado doméstico brasileiro. O valor das importações de bens de consumo era, em 1993, US$ 3,2 bilhões; em 1998, alcançou US$ 10,8 bilhões – mais que triplicou!

Dessa forma, os preços foram controlados e as pressões foram, dissolvidas pela exclusão de produtos domésticos do mercado brasileiro. Logo em seguida, para fazer crer que o que estava funcionando era a âncora cambial, foi permitida a concessão de crédito bancário em dólares – a operação era feita em real, mas era convertida de acordo com a taxa de câmbio do dia. Também a dívida pública interna foi, em boa parte, dolarizada para fazer crer que até o governo não aceitaria uma desvalorização.

Embora vendessem a fantasia do câmbio fixo, o crucial para os economistas do PSDB, à época, não era se o câmbio estava congelado, mas sim se ele estava megavalorizado para ser combinado com uma estratégia de abertura comercial. As importações cresceram, o saldo negativo com o exterior aumentou e os preços foram estabilizados, mas com taxas de juros estratosféricas com o objetivo de atrair dólares para o país. Essas taxas de juros bancavam a avalanche de importações de bens de consumo. Em 1994, a taxa de juros Selic média foi superior a 70% ao ano; em 1995, superior a 54%. No período que vigorou o plano Real, entre 1º de julho de 1994 a meados de 1999 (quando foi implantado o regime de metas de inflação), a taxa de juros Selic média foi de 38% ao ano.
Em 1998, a taxa de câmbio super-hiper-megavalorizada já não era mais suportável. Houve muitos debates internos entre economistas do PSDB e foi decidido pelo presidente-candidato à reeleição que a desvalorização somente ocorreria após as eleições de novembro. Vitorioso nas urnas com a promessa que não haveria desvalorização (veja a capa de O Globo de 31 de agosto de 1998: FH GARANTE QUE NÃO MEXE NOS JUROS NEM NO CÂMBIO). Mas em janeiro de 1999, FHC substituiu o presidente do Banco Central, que estava provavelmente entre aqueles que não queriam a desvalorização, e autorizou o desmonte da farsa eleitoral e econômica: o câmbio foi desvalorizado.

Os céticos erraram novamente. Pensaram: “agora a coisa afunda”. Não percebiam que a âncora do Real era outra. Apesar da desvalorização ocorrida dentro de uma “banda diagonal transversa”, segundo os termos quase ininteligíveis do novo presidente do Banco Central, o dólar continuava muito barato.

Esta foi a história do Plano Real. Entre 1999 e 2003/4 houve somente o aprofundamento dos fundamentos macroeconômicos ditados pelos economistas liberais do PSDB e pelo FMI. Os resultados dos anos de Plano Real foram dramáticos em termos de criação de empregos formais, de crescimento e concentração de renda.

A “responsabilidade” fiscal apregoada (pelo FMI e os economistas do PSDB) foi transformada em elevação da carga tributária e da dívida líquida pública como proporção do PIB. Os resultados fiscais somente viriam a melhorar (e muito) com o crescimento econômico da era Lula – tal como sugeria o Plano Keynes. Cabe lembrar que a primeira fase do Real, anterior à suposta sincronização de preços e à estabilização da inflação, era a fase da busca do equilíbrio das contas públicas. Neste ponto talvez resida o maior desastre do plano Real. A dívida líquida do setor público em relação ao PIB, de 38,2% em 1993, saltou para 48,7% em 1999.

A maior herança benigna do Plano Real foi a consciência antiinflacionária absorvida pela sociedade (para a qual o plano Cruzado também contribuiu). Sim, a inflação foi controlada, mas isso não isenta os organizadores e condutores do plano Real de seus graves equívocos. Por outras vias, mais aderentes ao plano Keynes, a inflação também teria sido debelada – é o que mostram inúmeras experiências. Não foi somente o Brasil que enfrentava um regime de alta inflação e não foi somente o Brasil que conseguiu superá-lo. Por exemplo, na Argentina, nos cinco primeiros anos pós-estabilização, a economia cresceu em média 7,8% ao ano – em seguida as orientações do FMI levaram a Argentina para uma crise profunda. Mas, no Brasil, o crescimento foi medíocre e, em decorrência, os custos sociais foram altos demais.

A primeira fase do Real promoveria um ajuste fiscal e melhoraria os resultados das contas públicas. Ocorreu o inverso. A segunda fase, a da sincronização do reajuste de preços, foi apenas “para inglês ver”. E a terceira fase, a da estabilização, obteve êxito, mas alcançou seu objetivo à custa de juros altos para conter a perda de reservas, desnacionalização da economia, geração de poucos empregos formais, baixo crescimento e concentração de renda. Poderia ter sido bem sucedida sem estes custos.

Ainda sobre a última fase do Real, a fase de estabilização, que foi de julho de 1993 a meados de 1999, vale uma observação muito importante: a inflação média desse período foi superior a 12% ao ano – uma inflação muito superior à inflação dos últimos dez anos, que é inferior a metade daquela registrada nos anos que são hoje comemorados pelo PSDB. Portanto, o que o plano Real fez, de fato, foi lançar as bases da estabilização consagrada apenas no último decênio – é o que está provado pelos números. Mas cabe uma observação: a sociedade brasileira precisa de muito mais do que uma economia com inflação controlada –  e tudo o que vai além disso não foi sequer iniciado nos governos do PSDB.

Vale o exame de alguns outros números. A concentração de renda foi extraordinária nos anos do plano Real: a participação dos salários no PIB caiu de 45,1% em 1993 para 38,2% em 1999. A carga tributária aumentou 11% entre 1993 e 1999. A taxa média de crescimento econômico foi de 2% (a mesma taxa de crescimento do governo Dilma). No primeiro mandato de FHC, que corresponde à aproximadamente ao período do plano Real, foram criados apenas 824 mil empregos formais (em 4 anos), um número ridículo se comparado à média da última década, que tem sido a criação de mais de 1 milhão de empregos formais por ano.

A concepção original do Plano Real era excepcional e tinha base teórica e histórica – contudo, não foi uma invenção de economistas brasileiros. Coube, sim, aos economistas do PSDB patrocinar o não aprofundamento da fase de sincronização dos preços, a promoção de uma enorme substituição de produtos nacionais por produtos importados durante a fase de estabilização e o agravamento da situação fiscal brasileira. Mas hoje, 20 anos depois, somente lembram do que chamam de derrubada da inflação. Não possuem sequer a honestidade intelectual para reconhecer os erros e os custos sociais pagos em nome de estratégias eleitorais e crenças neoliberais.

O PLANO REAL (PONTO DE VISTA DE DIREITA)


O entrevistado é Gustavo Franco, economista e ex-presidente do Banco Central


Na dia 28 de fevereiro de 2014, festejamos os 20 anos da publicação da Medida Provisória nº 434, que introduziu a URV (Unidade Real de Valor), uma formidável inovação que assumiu a forma de segunda moeda nacional, porém apenas “virtual”, ou “para servir exclusivamente como padrão de valor monetário" (art. 1).

A URV era o real, desde o início. Em seu artigo 2º, a MP 434 já determinava que, quando a URV fosse emitida em forma de cédulas — e assim passasse a servir para pagamentos —, o cruzeiro real seria extinto e a URV teria seu nome mudado para real.

A inflação beirava os 40% mensais, mas, em vista do modo como foi construída, a URV (que Saulo Ramos, com verve e má vontade chamou de "feto de moeda") era uma "moeda estável", ou uma unidade de conta protegida da inflação, portanto, superior às outras em circulação ou em uso para indexar contratos, e por isso as substituiu de modo espontâneo e surpreendentemente rápido.

Na partida, em 1º de março de 1994, a cotação da URV em cruzeiros reais, a moeda de pagamentos, era CR$ 647,50, valor que o BC usava para fixar a taxa de câmbio (e não o contrário). No dia seguinte a URV mudou para CR$ 657,50, conforme a variação da inflação corrente, e depois para CR$ 667,65 assim fomos.

Em poucas semanas a URV se alastrou de forma viral, pois era um convite irresistível: migrar espontaneamente para uma moeda de conta que andava junto com o dólar. Por que o Brasil não poderia ter uma moeda tão boa quanto a de qualquer outro país? Por que a moeda estável, a indexada, era privilégio apenas do rico que usava o "overnight"?

Em 1º de julho, quatro meses depois (e bem poderia ter sido antes!), as novas cédulas e moedas do real foram colocadas em circulação em lugar do cruzeiro real na razão de R$ 1,00 para CR$ 2.750,00. A reforma monetária estava completa e o real em plena circulação.

Quem disse que o brasileiro não sabe fazer conta e não é capaz de entender e agir inteligentemente diante de questões econômicas aparentemente complexas?

Depois de 20 anos, a adoção generalizada da URV ainda está cercada de uma aura de mistério e fascinação, e entre os especialistas é lembrada como uma das experiências de estabilização mais engenhosas e bem sucedidas que a humanidade já conheceu. O fim da hiperinflação alemã em 1923, que fez uso de um expediente semelhante — o rentenmark — é frequentemente descrito como um "milagre", e desafia explicações, tal como a URV.

O fato é que a introdução da moeda de conta indexada deu início a uma reação química em cadeia, uma espécie de redescoberta do "valor das coisas", que estendia seus efeitos para todo o espectro de simbolismos associados ao dinheiro, sugerindo, inclusive, a identificação entre inflação e imoralidade. Havia muita coisa em jogo no plano simbólico: a moeda, como a bandeira e o hino, está entre os mais importantes símbolos nacionais de tal sorte que sua degradação, quando levada ao extremo de uma hiperinflação, espalhava suas consequências para muito além da órbita econômica.

Elias Canetti, numa passagem famosa sobre a hiperinflação alemã, observou mais genericamente que uma inflação desse tipo "pode ser tomada como uma orgia satânica de desvalorização no qual os homens e as unidades de seu dinheiro exercem os mais estranhos efeitos sobre si mesmos. Um se projeta no outro, o homem sentindo-se tão 'ruim' quanto o seu dinheiro". Nada a estranhar, portanto, no torpor e na dissolução de valores, entendida de forma mais ampla, em vigor durante aqueles anos e que, infelizmente, deixou sequelas.

O "caminho e volta" enunciado pelo Plano Real compreendia a recomposição e reunificação das funções da moeda em sequência: primeiro a de servir como unidade de conta com a URV, substituindo outros indexadores e unidades de conta usadas em contratos e orçamentos familiares, segundo a de servir como meio de pagamento de curso legal, com a emissão de cédulas e moedas denominadas em real, e por último, e mais difícil, a de funcionar como reserva de valor, teste realizado quando a nova moeda deixou de ser indexada ao dólar e flutuou com relação à moeda americana. E diante do veredicto dos mercados, quando o real apreciou com relação ao dólar, e assim se manteve, o circuito estava completo.

Era apenas o começo, é claro, e o programa prosseguiu, inclusive por que havia clareza que o Plano Real, diferentemente dos outros planos econômicos, compreendia uma extensa agenda de ações contemplando os chamados fundamentos econômicos da estabilização e do desenvolvimento. Era uma linguagem inovadora para uma época em que as pessoas ainda acreditavam em Papai Noel e inflação inercial. Essa agenda era o cerne do programa. A passagem do tempo e a alternância no poder só tornaram mais claro que estávamos adotando paradigmas já bem assentados no tocante à disciplina monetária, à responsabilidade fiscal e à sustentabilidade financeira do Estado.

A URV, depois transformada em real, trouxe a inflação no Brasil para níveis internacionais no início de 1997 sem sustos, confiscos, caneladas e recessão. No ano calendário de 1998 a inflação medida pelo IPCA foi de 1,6%, a menor da série histórica. Foi a menor inflação anual desde que o IPC da Fipe começou a ser calculado em 1940.

Pois assim, a estabilização nos retirou de um estado de torpor e depressão para outro de euforia e ansiedade; a agenda de estabilização rapidamente se converteu na discussão das reformas necessárias para o crescimento, onde estacionamos já faz alguns anos.

O problema do crescimento é semelhante ao da estabilização de muitas formas: ambos dependem de coordenação, persuasão, segurança quanto à consistência macroeconômica e, sobretudo, incentivos corretos. O sucesso da URV e do Plano Real é sempre associado ao estilo da coisa, à transparência no fazer e à ideia de um "convite a aderir" a um mecanismo que os agentes econômicos percebem como superior. Não é um "Pacto Social" negociado por sindicatos e associações patronais, nem um mecanismo compulsório e invasivo como foram os congelamentos. Essas coisas não funcionam: as pessoas, inclusive as jurídicas, preferem exercer suas próprias escolhas orientadas por suas próprias percepções sobre os seus melhores interesses. Assim funcionam as economias de mercado como a nossa. Quando o governo organiza políticas públicas que atentam para este detalhe crucial sobre o modo como a economia funciona as coisas costumam dar certo.


O PLANO REAL (PONTO DE VISTA INTERMEDIÁRIO)



“A diferença deste plano é que ele não teve um dia D, nada entrou em vigor por decreto”. Este trecho de reportagem do Jornal Nacional de 1993 resume bem o porquê o Plano Real conseguiu acabar com o fantasma da inflação: ele não foi implantado por decreto, por um grupo de burocratas, à força, de cima para baixo, e sim com a adesão voluntária e debates no congresso.

Quem vê nos jornais que o Real teve seu valor defasado de 1994 até hoje— uma nota de R$ 100,00 vale o equivalente a R$ 25,00 da época— pode, por um momento, não compreender o que esta moeda representou e representa até hoje para a vida dos brasileiros, inclusive os de baixa renda. Se for calcular a média de desvalorização em 1993, chegaríamos a uma desvalorização 300% maior e em 1/10 de tempo.

Sem contar a irresponsabilidade do último governo que rasgou a lógica da responsabilidade fiscal, das metas de inflação e partiu para o controle do câmbio — como se as experiências anteriores não fossem suficientes para mostrar que isso não funciona — algo que contribuiu para a defasagem monetária dos últimos anos. Além disso, parte das benesses vividas pelo país no mandato de Lula (que foi contra o Real) foi por conta da estrutura anteriormente estabelecida, outra parte foi graças ao Brasil ter ganhado na loteria Chinesa, que aumentou o preço das commodities.

Contexto

Em 1993, época de implantação da URV, o cenário econômico brasileiro não era dos melhores. Em meio a troca de moedas, planos, medidas como controle de preços e outras mal sucedidas, mudamos de Ministro da Fazenda 4 vezes em menos de 7 meses. A credibilidade com os credores externos estava afetada por conta de uma recente moratória e os consumidores não conseguiam planejar suas finanças pessoais, já que os preços dos produtos aumentavam mais uma vez no mesmo dia, de uma inflação que chegou a 2.400 % ao ano.

Do ponto de vista político, o Presidente Itamar Franco não havia sido eleito, era herdeiro de um Impeachment e nomeara como Ministro da Fazenda, um ex-senador, que era seu atual Ministro de Relações Exteriores, Fernando Henrique Cardoso, que sequer era economista “era mais que uma aventura, era uma condenação ao fracasso”, conta FHC em discurso na semana passada. Ademais, apesar de competente, a equipe técnica era inexperiente. Não seria mais fácil baixar um decreto?

A despeito das grandes dificuldades, tudo foi construído com debates e argumentos para mostrar para as pessoas que isso seria positivo para todos. Anunciado no início do ano, a Unidade Real de Valor, atrelada ao dólar, tornar-se-ia moeda se houvesse a adesão voluntária da maioria e se o congresso aprovasse as medidas necessárias como corte de despesas e aumento de impostos. Além do trabalho de convencer os credores externos que agora, sim,” a coisa ia”.

Tenho discordâncias em relação a posicionamentos de Fernando Henrique e críticas a seu modelo de privatização, que contou com ampla participação de financiamentos do BNDES. Mas, verdade seja dita, há, pelo menos, 10 anos o Brasil não sabe o que é ter um líder que respeita as instituições e que não as prostitui por interesses partidários.

A lição que fica é que uma equipe formada por excelentes técnicos — como André Lara Resende, Edmar Bacha, Gustavo Franco, Pedro Malan e companhia — não é motivo para se esquecer da participação popular e do trabalho de convencimento do congresso. Afinal, se uma medida é positiva, então, para que ter medo do debate?

O mercado surge de forma espontânea, meia dúzia de economistas, por melhores que sejam, não têm condições nem de entender o funcionamento de toda economia, quiçá de ditar como ela e os preços devem se comportar. A dificuldade de alguns economistas em entender esta simples lição aplicada pela equipe do Real, foi muito bem classificada pelo Nobel de economia, Hayek, como Arrogância Fatal.

Sem guerras psicológicas nem pessimismo, quem sabe o mergulho na história por conta dos 20 anos de Plano Real poder ser aula não só de economia, mas de boa política e democracia para Rousseffs, Mantegas, Augustins Kirchners, Maduros e demais videntes que brincam de economia.


Wagner Vargas é jornalista, trabalha com Assessoria de Imprensa e Comunicação Estratégica na área de Telecomunicações e com consultoria e Marketing político. Repórter de política econômica do Jornal Imprensa e articulista e entrevistador do espaço do Instituto Millenium na Exame.com

quinta-feira, 3 de abril de 2014

MINT, PPICS e CIVETS desbancam BRICS em crescimento econômico

Grandes emergentes podem perder destaque econômico

Depois dos Brics, chegam os MINT, os PPICS e os Civets, siglas criadas pelos economistas para identificar novos países entre eles México, Colômbia e Peru que podem ganhar destaque, desviando a atenção dos grandes emergentes, como China ou Brasil, que enfrentam problemas de desaquecimento econômico.

Atualmente existe uma série de sinais preocupantes procedentes de China e Brasil, e recentemente também foi apresentada a lista de neo-emergentes, os PPICS (Peru, Filipinas, Indonésia, Colômbia e Sri Lanka) pela seguradora Conface.

PPICS

Todos eles têm um forte potencial de crescimento superior a 4,0%, as economias diversificadas, não ficam dependentes exportar matérias-primas e têm sistemas financeiros capazes de suportar o crescimento e de absorver um grau de choques externos.


MINT

Economicamente, três deles – México, Indonésia e Nigéria – são grandes produtores de commodities (apenas a Turquia não é). Isso contrasta com os Brics, onde o Brasil e a Rússia são produtores de commodities, mas China e Índia não.

Em termos de riqueza, México e Turquia estão no mesmo patamar, com renda per capita anual de US$ 10 mil. Isso é superior aos US$ 3,5 mil da Indonésia e US$ 1,5 mil da Nigéria – que está no mesmo nível da Índia.

Todos estão abaixo da Rússia (US$ 14 mil) e do Brasil (US$ 11,3 mil), mas ainda assim na frente da China (US$ 6 mil).

Os grandes desafios se dão por conta de que a corrupção é um tópico comum nos quatro países, e eu tive diversas discussões interessantes em cada um dos lugares.




CIVETS

Um acrônimo dado aos países Colômbia, Indonésia, Vietnã, Egito, Turquia e África do Sul, que são previstos por alguns para estar entre os próximos mercados emergentes a aumentar rapidamente em importância econômica ao longo das próximas décadas.

Os aspectos positivos do grupo de países inclui CIVETS relativa estabilidade política (especialmente quando comparado com as gerações anteriores), populações jovens que com foco em educação e, em geral crescentes tendências econômicas. A exposição a estes países recentemente se tornou possível para o investidor de varejo

A Coface acrescenta à lista outros países considerados promissores, mas de risco maior, como Quênia, Tanzânia, Zâmbia, Bangladesh e Etiópia.

PODE SER QUE ALGUMAS SIGLAS NÃO “COLEM” NO ENTANTO É BOM FICAR DE OLHO NO CRESCIMENTO ECONÔMICO DOS NOVOS EMERGENTES.

Emergentes enfrentam desaquecimento

A lista de neo-emergentes é divulgada no momento em que os grandes emergentes enfrentam sérios problemas: a Rússia está em plena crise com a Ucrânia; o Brasil acaba de ter sua nota rebaixada pela Standard and Poor’s; e a China é afetada por uma série de incidentes de crédito (lista de obrigações no início de março, esboço de uma retirada em massa de bancos locais).

No entanto, a busca pelos neo-emergentes não é de hoje, e há anos eles coexistem com os tradicionais Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). A prova é que o índice MSCI Emerging Markets, lançado em 1988 com 10 países, conta agora com 21.

A mesma sociedade de investimentos MSCI já criou um índice de países na fronteira para 26 emergentes do futuro, que vão da Argentina ao Sri Lanka, passando pela Nigéria.

O economista Jim O’Neill, que havia popularizado o termo Bric, retoma agora outra sigla, os Mint, grupo que inclui México, Indonésia, Nigéria e Turquia. Também há outro, criado pela The Economist Intelligence Unit, o Civets, reunindo Colômbia, Indonésia, Vietnã, Egito, Turquia e África do Sul.

Christopher Dembik, analista do Saxo Bank, destaca Peru, Colômbia e Indonésia no pelotão de frente.

– Talvez estejamos diante de países que crescerão de forma mais sustentável – prevê Dembik.

OBSERVE O MAPA ABAIXO QUE DEMONSTRA O CRESCIMENTO DO PIB EM TODOS OS PAÍSES DO MUNDO NO ANO DE 2013



SÓ PARA VER COMO PODEMOS SER ENGANADOS, O GOVERNO PUBLICA O MESMO MAPA SÓ QUE SEM MOSTRAR QUE MUITOS OUTROS PAÍSES CRESCERAM MAIS DO QUE O BRASIL EM 2013.


Jonathan Kreutzfeld

Fonte: